|

Entrevista com João Barone para o site
Vagalume
(Abril 2006)
Esse é
um ano de muitas comemorações para os
Paralamas do Sucesso. O grupo está indo para
vinte e cinco anos de carreira, Selvagem?, o
disco marco de 1986, está fazendo vinte anos
e ainda temos o lançamento de um DVD “ao
vivo, mas não tão ao vivo assim” (calma que
você já vai entender). Foto: Mauricio
Valladares Nós aqui no Vaga-lume não
poderíamos deixar tanta coisa assim passar
em branco e é por isso fomos atrás do
pessoal da banda. Demorou um pouquinho mas
valeu a pena! João Barone foi paciente o
bastante para nos contar coisas divertidas,
históricas e curiosas dessas duas décadas e
meia dos Paralamas. Dos primeiros tempos,
quando ele dividia a cama de hotel com o Bi
Ribeiro ao auge do sucesso dos anos 80 e
muito mais. São essas histórias essas que
ficamos felizes em repartir com vocês.
Divirtam-se.
1. Vamos começar pelo último CD. Como foi a
fase de composição e pré-produção do disco?
As músicas demoraram para nascer?
João Barone: Nem tanto. Elas foram maturando
na medida em que fomos tocando, num processo
bem natural. A gente fez um "teste do dia
seguinte" com as composições pra ver se elas
ficaram boas ou não.
2. Imagino que esse disco deva ter sido um
dos mais difíceis para serem feitos em toda
a carreira de vocês (por ter sido o primeiro
que o Herbert compôs do acidente). Foi assim
mesmo? Você e o Bi estavam com ele nessa
fase de composição?
Barone: Não foi difícil, foi intenso. Música
pode ser uma coisa etérea, surge do nada.
Claro, precisa da inspiração, mas é como se
não existisse nada e de repente surge uma
idéia e ela se concretiza. Certamente esse
processo foi mais coletivo desta vez, pois
ajudamos o Herbert a selecionar as canções,
arranjá-las e chegar na forma final
delas.
3. Os shows da nova turnê estão sendo
bastante elogiados, o que mais falam é que a
carga emocional, que era grande e esperada,
dos shows da turnê anterior, aos poucos está
se dissipando e que o clima de festa que
sempre marcou as apresentações voltaram.
Você concorda com essa afirmação?
Barone: Sim, acho que estamos bem afiados no
palco e com um novo repertório, com bastante
música nova entremeada aos sucessos
antigos... Mas o Herbert continua
surpreendendo a platéia. Sentimos que é
sempre emocionante para o público poder
vê-lo em ação.
4. E essa idéia de DVD sem platéia? Baixou o
Pink Floyd em vocês? (risos). Fale pra gente
sobre o projeto, os convidados e quando ele
estará ans lojas.
Barone: Foi uma idéia que o Bi teve de
registrar um ensaio caprichado, com a gente
tocando num lugar que privilegiasse a banda
em ação, a filmagem e a gravação. Se
houvesse platéia, a vibração seria outra e a
gente queria tentar algo diferente, pois
acabamos de fazer o dvd "Uns Dias Ao Vivo".
Assim, deixamos que as câmeras interferissem
livremente durante a performance,
conseguindo efeitos e ângulos muito legais.
Quanto aos convidados, foram os mesmos que
participaram do cd: Nando Reis, Andreas
Kisser e Marcelinho da Lua. Como um bônus,
gravamos a faixa que o Manu Chao participou,
no único dia que ele pode vir ao Rio, no
estúdio Nas Nuvens.
5. Queria agora voltar no tempo, para o
primeiro show que vi na vida. Estamos em
1984 e os Paralamas abriam um show do Herva
Doce numa boate na Ilha Porchat ás 5 da
tarde numa "matinê para a criançada". Você
se recorda desse show? Imagino que no começo
da carreira esse tipo de roubada devia rolar
sempre (risos).
João Barone Barone: Putz, cê tá velho, cara!
Não foi muito roubada. O mais engraçado foi
o hotel, que tinha só cama de casal redonda,
na época em que eu dividia quartos com o
Bi... Imagina...
6. Logo depois vocês estouraram com "O passo
do Lui" e o show no Rock in Rio. Qual foi a
sensação naquele momento de ver que as
coisas iriam realmente dar certo?
Barone: Bem, a gente sempre arriscou muito
nessa época. Se não fosse para fazer o que a
gente queria, voltaríamos pra universidade.
Um tanto frustrados, mas voltaríamos. Aí, as
coisas foram se descortinando na nossa
frente e chegamos onde estamos hoje...
7. Para o pessoal mais novo "Selvagem?"
talvez não seja visto como o disco corajoso
que foi na época de seu lançamento. Me
lembro que na época o disco dividiu opiniões
até ser aclamado anos depois como um dos
mais importantes não só do nosso rock, como
da MPB. Essa "radicalização" foi
premeditada? Vocês se reuniram e decidiram
que era hora de mudar o som, e, logo, a
percepção das pessoas à respeito da banda?
Barone: De certa forma, sim. Em grande
parte, foi culpa do Herbert. Ele sempre foi
muito visionário e ao mesmo tempo, instável
quanto ao risco de ficar repetindo receitas.
Selvagem foi feito para ser diferente do
Passo do Lui, tentar ir além, sem repetir
fórmulas.
8. Bora- Bora levou a cabo as pesquisas de
Selvagem? Foi nessa época que vocês tocaram
com o Olodum na Bahia (num concerto que foi
eleito recentemente um dos melhores já
realizados no Brasil). Fale pra gente sobre
esse show e essa troca de figurinhas com
artistas fora do eixo pop/rock.
Barone: Fomos dando linha para essa idéia de
fazer diferente. Bora Bora foi um divisor de
águas também importante, primeiro álbum em
que nos produzimos. Depois dele, acho que
amadurecemos e repetimos algumas coisas, mas
com uma certa sabedoria e sabendo dar
roupagens diferentes para a nossa música. Os
shows com o Olodum em Salvador eram uma
catarse coletiva. Geniais. Depis deles, teve
o Jerônimo, do "Eu Sou Negão", de quem
gravamos "Jubiabá", no Big Bang. Batemos
bola com o Carlinhos Brown antes dele ser o
ícone pop de hoje, e por aí vai...
9. O início dos anos 90 foram complicados
não só para vocês, como para os demais
colegas de geração. A crítica passou a pegar
mais pesado, o mercado em recessão fez as
vendas caírem e um clima de incerteza
pairava no ar. Como foi passar por isso tudo
estando no olho do furacão? E como você vê
hoje em dia o álbum "Os Grãos"?
Barone: Sobrevivemos aos 90... Tempos
difíceis. Os Grãos é um trabalho que
desperta sentimentos ambíguos para mim. Acho
um disco com uma certa carga sombria. A
melhor coisa dele pra mim foi "Trac Trac",
do Fito Paez. Estávamos com uma certa tensão
interna, o Herbert cobrava muito da gente,
no sentido de contribuir mais para a banda.
Ele estava muito "sargento" nessa época.
Quem era o compositor a cargo da banda era
ele. Sempre foi. Quando ele passou a
entender, assumir e ficar mais tranqüilo com
isso, anos depois, com o Nove Luas, as
coisas ficaram bem melhores. Os Grãos agrada
muita gente mesmo depois de tanto tempo.
Muitos dizem que na hora não entenderam, mas
agora escutam o disco com outra leitura...
10. Logo depois o disco Severino foi lançado
e no geral incompreendido por aqui. Já na
Argentina o disco agradou em cheio. Muito se
falou na época que vocês estavam até
pensando em se concentrar mais no mercado
latino que no interno. Isso chegou mesmo a
ser cogitado? Aliás fale dessa relação de
amor que os latinos, e os portenhos em
particular, nutrem por vocês.
Barone: Severino foi uma coisa incrível,
bateu fraco aqui e estourou na América
Latina. Realmente, durante os anos de 94, 95
e 96, fomos os reis" nessa área. A melhor
banda argentina de música brasileira, diziam
os jornais. Mais uma vez, tudo culpa do
Herbert, que apostou no intercâmbio entre
alguns artistas locais, aprendeu a falar
castelhano como os gringos e, acima de tudo,
se inspirou muito com os mestres Charly e
Fito.
11. Depois de um disco ao vivo que os trouxe
de volta às paradas. Vocês lançaram Nove
Luas, o disco mais simples e pop de vocês em
muitos anos. Chegou um momento em que bateu
a vontade de ser mais simples mesmo? Ou de
novo o lance foi mais intuitivo?
Barone: Foi uma certa "volta às raízes",
brincar um pouco com as coisas que são mais
standards e deixamos de lado durante um
tempo por patrulhamento interno. O Herbert
às vezes queria redescobrir a pólvora. Mas
essa atitude dele foi sempre muito
importante para a banda.
12. O fim dos 90 foi marcado por duas mortes
que com certeza mexeu com vocês. Como era a
relação de vocês com Renato Russo e Chico
Science? Que tipo de lembrança esses nomes
trazem `a sua mente?
Barone: Para nós, o Renato não era mais
aquele cara instigante e contundente dos
idos de Brasília e dos primeiros álbuns da
Legião, mesmo antes daqueles discos solo
dele. Ele era uma espécie de "médico e
monstro", parecia viver uma dúvida entre ser
um ídolo das multidões e as
responsabilidades que isso acarreta. Optou
por se amaciar, falar de amor, vamos dar as
mãos... Era um grande ídolo pop e não
gostava de aceitar isso. Foi uma perda muito
precoce. Já o Chico, foi um grande
inspirador de idéias e conceitos.
13. "Longo Caminho" foi um disco de volta às
raízes, com vocês tocando apenas como trio,
como há tempos não se via. Esse plano já
estava idealizado antes do acidente sofrido
pelo Herbert? Como você se sente em relação
a esse trabalho?
Barone: Foi um belo retorno. Um tanto
soturno, mas ajudou a retomada do nosso
caminho. Representa a vontade de ir em
frente..
14. Aqui no vagalume, entre as canções mais
buscadas de vocês pelos nossos usuários
estavam: "Aonde quer que eu vá", "Cuide bem
do seu amor" e, "Meu Erro". O que você pode
contar de legal sobre essas canções? Seja
sobre a composição, gravação ou do
significado delas para a banda.
Barone: "Aonde Quer que Eu Vá" o Herbert
escreveu em homenagem ao labrador dele que
morreu... Era a música que estava tocando no
rádio na época do acidente e a gente não
gostava de tocar nos shows do retorno. Mas
agora, tocamos ela no bis. "Cuide bem" é uma
baladinha clássica, uma espécie de "Me Liga
II, A Missão". "Meu Erro" tem um segundo
nome: "Esta Não Pode Faltar No Show".
15. Hoje os Paralamas já são vistos como
banda clássica e quase intocável. O que
existe de bom, e de ruim, nisso? Você
consegue vislumbrar o futuro seu e da banda?
E você acha mais fácil ou difícil sobreviver
como músico nesse mundo de novas tecnologias
e formas de se ouvir música?
Barone: Olha não tem essa de clássica,
intocável. A gente tem que sair na rua,
matar um leão todo dia. Responder uma
entrevista de 200 perguntas que nem a sua (putz!
mata o velho!), coisas assim. Enquanto a
gente se sentir bem fazendo o que a gente
faz, vamos continuar. O Herbert disse que
estamos abrindo um novo ciclo de 20 anos de
trabalho... Vamos em frente até o dia em que
a mídia musical será por telepatia...

|