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BRASIL AFORA
Depois de tantas turnês pelo Brasil, Os
Paralamas do Sucesso conseguiram provar
que é possível viajar pelo país sem sair do
estúdio. O sol insaciável, o brilho da areia
dourada, as esperanças do povo, está tudo
lá: o disco novo de Herbert Vianna,
Bi Ribeiro e João Barone não é
ao vivo – mas é uma incrível viagem ‘Brasil
Afora’.
Gravado
em Salvador e no Rio de Janeiro, ‘Brasil
Afora’ é o primeiro
disco de canções inéditas da banda em quatro
anos. Talvez seja coincidência, talvez seja
destino, mas o fato é que as duas capitais
mais quentes do país certamente
influenciaram o estilo desse disco. Depois
de uma pegada mais roqueira em ‘Longo
Caminho’, de 2002, o CD
novo segue a trilha retomada em ‘Hoje’,
de 2005. O que nos leva em direção ao
litoral: ‘Brasil Afora’ é um disco de verão.
E um verão do Nordeste, daqueles em que o
sol racha a cuca e deixa o chão tão quente
que os pés não conseguem ficar parados.
‘Brasil Afora’ é pop, é reggae, é rock, tudo
isso à brasileira. Dá vontade de aumentar o
som do alto-falante na praia, servir
caipirinha e deixar o mundo inteiro com um
sorriso no rosto.
Poucas
bandas no mundo têm um estilo tão
característico, que fazem a gente adivinhar
quem está tocando já no primeiro acorde. ‘Meu
Sonho’ abre o disco assim: entra uma
guitarra marcada, a bateria explode no
rosto, o baixão engole o silêncio… antes de
os metais começarem a brilhar a gente já
sabe que “isso só pode ser Paralamas”. Boa
viagem: se esse disco fosse um filme, seria
um road movie. Em Roma, como os
romanos; em Salvador… Carlinhos Brown,
parceiro dos Paralamas no megahit ‘Uma
Brasileira’ nos anos 90, desta vez está de
volta com duas canções, ‘Sem Mais Adeus’,
com Alair Tavares, e ‘Quanto ao
Tempo’, com Sullivan. Ninguém
melhor que o multitalentoso baiano para
imaginar um céu que mudou de tom, mas que
não vai cair sobre nossas cabeças. E que
agora tem uma tonalidade diferente: é
simplesmente ‘bonito lilás’. Essas cores só
existem na Bahia.
A
parceria seguinte parece mais urbana, mas é
só impressão: composição do produtor
Liminha e de Arnaldo Antunes, a
batida deliciosa de ‘A Lhe Esperar’
faz com que a poesia concreta do ex-titã se
misture à areia da praia (“Água venha/Água
vá/Arda lenha/Cave pá/ Chova chuva/Vire
curva/Gire roda/Quebre mar”). Nasce aí um
novo elemento da natureza: um concreto menos
duro, mais gingado. Já que estamos na
estrada, não custa nada descer um pouquinho
para o sul e cruzar a fronteira com a
Argentina para buscar a balada ‘El Amor’.
A animada ‘El Amor Después Del Amor’, do
hermano Fito Paez, se transforma aqui
em um elogio emocionado ao amor que se
completa (“Depois de te amar eu estou/Tão
pleno de amor”), ao amor que é mais intenso
que o próprio ato de amar. Na sequência,
Herbert Vianna canta ‘Aposte em Mim’
– como se isso fosse necessário. O reggae
ensolarado vai para o banco de trás e quem
assume o volante agora é o rock que eles
ouviam em Brasília, muito antes de
conhecerem tão bem o resto do Brasil.
Influenciado pelo ritmo dos anos 70 e a
sonoridade dos 80, ‘Aposte em Mim’ é música
para dançar a noite inteira. Então… let’s
dance.
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Saímos da Brasília, terra da
adolescência dos Paralamas, e
estamos a caminho da Paraíba, terra
natal de Herbert Vianna. ‘Mormaço’
é aquele trecho da viagem em que
somos obrigados a parar para tomar
água, tamanha é a crueldade do
calor. Afinal, “quem luta para
respirar sabe que a briga é séria”,
ainda mais em um lugar “onde não
circula nem o ar / no mormaço da
miséria”. Nessa faixa, os Paralamas
param no meio da estrada para dar
carona a outro convidado muito
especial: Zé Ramalho.
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O sol
está tão forte que até a voz marcante do
mito da Nação Nordestina ganha cor. Agora
engatamos uma meia-volta e descemos para
onde o vento começa a soprar e aliviar o
suor. E nem importa se estamos em ‘Taubaté
ou Santos’; o que importa é que “os
ideais não sejam sonhos / mas que possam ser
reais”. E nos aproximamos aos poucos das
regiões mais roqueiras do Brasil... Talvez o
céu nublado e a temperatura mais baixa sejam
os culpados por trazer mais peso ao som.
‘Brasil
Afora’ é uma porrada; é o momento em que a
gente lembra que os Paralamas são um
power-trio daqueles ‘de responsa’, com garra
e músicos excepcionais. Mas espera um pouco:
ouvindo direito, esse rockão tem uma
harmonia meio diferente. Será que tem algo
aí de baião? O sotaque acelerado e a melodia
dissonante nos deixam confusos… onde é que
estamos mesmo? Não achei ‘Tempero Zen’
no mapa, só está na cara que estamos em
alguma cidade grande. E também há a certeza
de que o órgão é Hammond e o tecladista é
João Fera, o mais Paralama dos
quase-Paralamas, turma da pesada que conta
ainda com o saxofonista Monteiro Jr.
e o trombonista Bidu Cordeiro. Isso é
som para ser ouvido em qualquer lounge
de qualquer metrópole. É tão cool que dá
vontade de sentar ao lado de alguém querido
e pedir uma caipirinha. Nesse caso, de
saquê.
O clima
de The Doors de ‘Tempero Zen’ nos lembra que
a viagem está perto do ‘The End’. Em ‘Tão
Bela’ é hora de aumentar o som, porque
rock pesado é para ouvir no volume máximo. A
última do disco é uma quebradeira da cozinha
baixo-batera com um verdadeiro solo de
guitar hero, no melhor estilo daqueles
power-trios que nunca saíram da nossa
cabeça. E quem quiser ainda pode fazer mais
uma escala: a bônus track ‘O Palhaço’ estará
disponível apenas para quem baixar o álbum
pela internet. Vale a pena: é um pop-anos 60
staccato e leve, para cima, com clima
de uma época em que se sobrevivia apenas de
alto astral. Assim, a viagem pelo Brasil
termina também com uma viagem no tempo. E o
tempo está do lado dos Paralamas: ouvir um
disco novo deles é como voltar para casa
após uma longa viagem, como encontrar a
turma no canto de sempre da praia. É um som
que ajuda a nos lembrar quem somos, não
importa em que cidade está o nosso coração.
É delicioso descobrir esse país guiado por
três caras como eles. E com uma trilha
sonora assim, não tenha a menor dúvida: essa
viagem vai ficar na memória.
Felipe
Machado
Fevereiro/2009
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